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David Droga: ainda sou o mesmo, mas em um canvas maior

O fundador e chairman criativo diz que não tem medo de fracassar e venda para Accenture é uma forma de manter a relevância da agência

Isabella Lessa
18 de junho de 2019 - 15h37

Suzanne Vranica, David Droga e Brian Whipple no Lumiére Theatre, em Cannes (Crédito: Celina Filgueiras)

Suzanne Vranica, editora de publicidade do Wall Street Journal, mal deixou seus dois entrevistados esquentarem a cadeira ao resgatar a fala de um deles, Brian Whipple, CEO da Accenture Interactive, instituindo o tom inquisitivo da entrevista: “Você disse que nunca iria contratar um Don Draper e, bem… diga olá para o Don Draper”, exclamou, apontando para o segundo convidado, David Droga, fundador e chairman criativo da Droga5.

Whipple de fato disse, durante um evento em Nova York no ano passado, que não tinha interesse em contratar um jovem gênio da publicidade, meio Don Draper, cujo foco resida somente na criação de campanhas publicitárias, mas sim alguém que queira sair na capa do jornal mudando a forma com que a marca interage com os consumidores, de forma holística.

E David Droga respondeu a esses requisitos. O nova-iorquino não é tão jovem, mas é considerado um dos maiores criativos da indústria, responsável por diversas campanhas – ganhou mais de 70 Leões de Ouro e 15 Grand Prix – mas que não ficam restritas àquela noção Mad Men de criatividade. Pelo contrário: a Droga5 conseguiu destaque na indústria com cases inusitados e comentados pelas pessoas, como “If We Made It”, para Newcastle.

Segundo Droga, assim que ele percebeu que havia atingido o teto com esse tipo de trabalho, viu na Accenture Interactive uma oportunidade para continuar relevante e resolveu vender a agência para a consultoria, deixando o mundo inteiro (pelo menos o mundo publicitário) de boca aberta.

Em resposta à provocação inicial de Suzanne, Whipple tentou minimizar a compra mais emblemática da história da companhia lembrando das dezenas de aquisições anteriores em diferentes mercados, como a inglesa Karmarama e a espanhola Shackleton. No entanto, a Droga5 é a maior aquisição da Accenture Interactive até o momento – e a mais inesperada, já que Droga não dava sinais de que desejava lançar mão da independência da operação.

Ele explicou que a decisão veio de características pessoais: “sou uma pessoa inquieta. Não tenho medo de fracassar. Quando estava na Publicis percebi que queria decidir com quem iria trabalhar e, ao me tornar independente, me vi livre de compromissos. Se acredito que há chance de fazer algo excelente vou lá e faço. A indústria mudou e precisamos nos manter relevantes. Sem desrespeitar as holdings, não tinha interesse nelas”, afirmou.

O criativo negou que primeira queda na receita da Droga5 no ano passado – em comparação com 2017, a operação fechou 2018 com baixa de 9,8% ¬– pesou na decisão de selar o acordo com a Accenture. Admitiu, porém, que a agência pegou alguns clientes que não deveria ter pegado, com interesses distintos dos da operação.

Em vez disso, viu na Accenture Interactive a possibilidade de fazer coisas que a agência não conseguiria fazer antes, de estabelecer relacionamentos novos e ampliar o canvas da equipe cinco vezes mais. “Se crio o desejo pela marca e o consumidor vai para o varejo ou para o online e é uma merda, não posso fazer nada e essa experiência tem de ser fluida”, comentou, acrescentando que ainda se sente empolgado pelas ideias criativas, mas que é preciso ser capaz de chegar a mais partes do negócio do cliente e isso não é possível somente com criatividade.

Mas e o choque de culturas? – perguntou Suzanne à dupla, ecoando uma das principais ressalvas do mercado desde o anúncio da aquisição, no começo do ano. De acordo com Brian, não é tão óleo e água quanto pode parecer. “As pessoas ouvem a palavra consultoria e pensam em uma cultura exclusivamente voltada para expandir negócios. Mas, no caso da Droga5, temos culturas compatíveis e queremos que sejam a agência que faz o que faz de melhor. Imagine um ambiente colaborativo com pessoas de várias expertises, todas juntas. Não há choque de culturas”, defendeu. Para Droga, a cultura de ambas é sobre participação e confiança, focada na construção de coisas que salvem a vida das pessoas com tecnologia, e não banners.

A Accenture Interactive deve prosseguir com fusões e aquisições nos próximos meses, ainda que não no mesmo ritmo pois, segundo Whipple, a consultoria já conta com quase todas as especialidades de que precisa. Descarta totalmente comprar uma holding e acha improvável que outra consultoria ou empresa de tecnologia o faça, pelo menos nos próximos dois anos.

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