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Cannes Lions

17 A 21 DE JUNHO DE 2019 | CANNES - FRANÇA

A arte da felicidade

Meditar no Tibet é fácil. Difícil é fazer isso na Times Square


21 de junho de 2019 - 9h45

Você já deve ter ouvido falar na Marie Kondo e o seu método de organização, o Konmari (caso não tenha visto, corre no YouTube agora mesmo). Ela e o marido deram uma palestra aqui em Cannes e foi interessante ver como eles transformaram o simples fato de organizar a casa numa filosofia de vida.

É o poder das pequenas coisas. Organizar uma gaveta de meias, por exemplo, pode ensinar muito sobre como ser mais seletivo em suas escolhas, sobre consumo consciente e por aí vai.

E todos nós temos nossas gavetas de meias: sentimentos, trabalho, família, amigos, dinheiro. Todas as decisões que tomamos nessas gavetas ditam nossa saúde mental. É um exercício diário de desapego.

Mas desapego não é só sobre abrir mão das coisas. É também sobre escolher algo que realmente vale a pena se apegar. E é muito comum ouvirmos por aí que é preciso desapegar do trabalho. Eu discordo. Trabalho não é tudo na vida, mas é uma parte importante. O que precisamos é desapegar de atitudes e processos nocivos que acabam destruindo um ambiente saudável. Por isso não precisamos excluir o trabalho do conceito de felicidade. Ele pode nos trazer satisfação pessoal, desde que a jornada seja respeitada.

Muitas vezes damos mais valor à entrega final, ao reconhecimento, sem nos importarmos com o que passamos para atingir esse objetivo. Um escalador quando atinge o topo do Everest, por exemplo, curte 15 minutos de uma vista deslumbrante. Mas o que faz isso valer a pena e ficar na memória é a forma como foi construído. Os vários dias que ele passou se preparando. As pessoas que fizeram parte desse processo. O esforço e o aprendizado que ele viveu ao longo dessa trajetória. Se todo esse processo só envolveu estresse e não foi feito de forma leve e divertida, o topo da montanha vira apenas um objetivo alcançado e não uma experiência de felicidade.

Além disso, o trabalho nos dá uma coisa que, se não é essencial, é muito importante para a felicidade: dinheiro. Scott Galloway disse em sua palestra “The Algebra of Happiness” que ser feliz é uma soma de diversos fatores. E um desses fatores inclui ter uma vida estável. E pra se ter uma vida estável é preciso ter dinheiro. Se você não trabalhar entre os seus 20 e 50 anos, a vida vai te cobrar lá na frente. Então por que fazer disso algo ruim?

Claro que escrito aqui tudo parece ser mais fácil. Mas não é. Precisamos organizar essa gaveta diariamente. Há 20 anos li o livro “A Arte da Felicidade”, do Dalai Lama. Nele o mestre dizia que meditar no Tibet é fácil, o difícil é meditar no meio da Times Square. Esse é o desafio, buscar uma mente serena no meio do caos. Tentar evitá-lo é um erro, pois vivemos e aprendemos no meio dele. O importante é saber controlá-lo. E quanto mais pessoas ao nosso redor tiverem esse equilíbrio, melhor será a qualidade do trabalho.

O conceito de “ame o que faz” é romântico demais. Sucesso vem com resiliência, não dá pra se iludir achando que as coisas serão fáceis se você não se dedicar. Mas quando fazemos isso de forma conjunta, leve e com respeito, todos ganham.

É preciso organizar essas gavetas todos os dias, num trabalho de desapego de coisas que não importam mais. Fórmulas antigas, modelos antigos de trabalho, ideias ultrapassadas. Tudo isso precisa ser deixado de lado para se apegar ao que realmente importa e nos faz bem.

O resultado do trabalho final fica ainda mais consistente quando é feito por pessoas que acreditam no que fazem e conseguem ser felizes com o que fazem.

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