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Cannes Lions

17 A 21 DE JUNHO DE 2019 | CANNES - FRANÇA

Expectativas para o Festival de Cannes em duas versões

Cannes, como um festival de criatividade de vanguarda, certamente será um bom termômetro. Por um lado, categorias como Innovation, que privilegiam usos funcionais da tecnologia, podem revelar excessos. Por outro, categorias como Glass Lion certamente trarão bons exemplos de uso consciente das ferramentas tecnológicas


10 de junho de 2019 - 19h22

Versão longa
Qual é o livro que está hoje em sua cabeceira? Nunca consigo responder a essa pergunta com apenas um título. Na ânsia de manter o hábito da leitura em dia, me acostumei a ter sempre uns três livros na cabeceira ao mesmo tempo. Num dia mais preguiçoso, pego aquele menos denso, de leitura mais fácil. Quando estou mais concentrado e curioso, escolho o mais desafiador e complexo. E naqueles dias que preciso de inspiração, busco um mais lúdico, que me leva para lugares inesperados. Pode parecer estranho, mas para mim funciona.

Atualmente, a escalação da minha prateleira está assim: a biografia de Leonardo da Vinci escrita por Walter Isaacson (o mesmo biógrafo do Benjamin Franklin, Albert Einstein e Steve Jobs), 21 lições para o século 21 do Yuval Noah Harari (o mesmo de Sapiens e Homo Deus) e Dias de Abandono de Elena Ferrante (pseudônimo usado por um autor/autora desconhecido/a que diz ser uma mulher nascida em Nápoles em 1944).

OK, mas o que isso tem a ver com as minhas expectativas sobre o Festival de Cannes, tema deste diário? Bom, vou tentar pôr alguma ordem aqui nos pensamentos e reflexões que esses livros me proporcionaram e que vou levar na minha cabeça para o Festival.

Começo com a biografia de Leonardo da Vinci, de Walter Isaacson. Pela lista dos personagens que o autor escolheu investigar e escrever sobre, já dá para imaginar qual é seu assunto de interesse. Tanto da Vinci como Jobs são gênios criativos dos seus respectivos tempos – suas invenções foram verdadeiras revoluções, por isso entraram para a história como mitos. É justamente aí que o olhar de Isaacson faz a diferença: em todas as suas biografias, ele desconstrói a ideia de que esses caras foram super-heróis. Com fatos e depoimentos bem-encadeados, ele mostra que todos, até os gênios, são humanos. Se a virtude de Jobs foi aproximar as ciências e as tecnologias das humanidades, a de da Vinci foi conseguir reunir conhecimento de áreas que aparentemente não tinham nenhuma relação e usá-lo junto em um mesmo projeto. Ou seja: os gênios são gente. E o que eles têm em comum é serem exímios amarradores de pontas.

Está aí a minha primeira expectativa: ver que nossa indústria está amadurecendo e cada vez mais percebendo que a criatividade não é exclusiva dos criativos. Os grandes e melhores trabalhos costumam ser feitos por muita gente criativa e realizadora. Por vários amarradores de pontas juntos.

A segunda reflexão vem do livro 21 lições para o século 21. Se em Sapiens, Harari fala sobre o nosso passado e em Homo, Deus especula sobre o nosso futuro, 21 lições é sobre o presente. Um dos temas é justamente o impacto da evolução da tecnologia em nossas vidas. Segundo o autor, a rapidez dessa evolução tecnológica deve ser vista com cautela. A tecnologia está ficando cada vez mais inteligente. Estamos descobrindo inúmeras aplicações para tal inteligência. Mas, segundo ele, existe uma diferença entre inteligência e consciência: a primeira tem a ver com precisão, eficácia, com dados, conclusões e soluções artificiais geradas por máquinas, sistemas ou algoritmos. Já a consciência é reflexiva, sensível, moral — enfim, é essencialmente humana. Harari sugere que precisamos reequilibrar essa equação. Recomenda que tanto governos como marcas devem pensar, investir e incentivar ações que não só usem a inteligência funcionalmente, mas também que sejam capazes de filtrar, discutir ou até dar limites para a tecnologia.

Cannes, como um festival de criatividade de vanguarda, certamente será um bom termômetro. Por um lado, categorias como Innovation, que privilegiam usos funcionais da tecnologia, podem revelar excessos. Por outro, categorias como Glass Lion certamente trarão bons exemplos de uso consciente das ferramentas tecnológicas.

O terceiro e último pensamento tem a ver com o livro da Elena Ferrante. Aí menos pela história do livro em si e mais pela história de quem escreveu. Um fenômeno da literatura mundial, best-seller e que ninguém sabe a real identidade do autor/autora. Em tempos de redes sociais, Instagrams, LinkedIns e afins, em que a superexposição é a regra, temos uma pessoa que é um sucesso mundial, mas simplesmente prefere que ninguém saiba quem ela é. No mínimo isso nos faz pensar. Estaríamos nós, publicitários, dispostos a sair do holofote e deixar que apenas o nosso trabalho seja famoso e fale por si só? Será que as marcas estariam dispostas a aparecer menos, ou de forma mais sutil, para que a relevância do conteúdo assuma o papel principal? O que é mais importante: visibilidade ou reputação? Nada melhor do que o Festival de Cannes para mostrar algumas respostas.

Versão curta
Se você está em um dia preguiçoso e não rolou ler um textão denso como esse, aqui vai um resumo das minhas expectativas para o Festival: esquecer dos livros, encontrar vários gênios da propaganda para tomar uns rosés e postar tudo no Insta para deixar o povo com inveja.

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