O Festival de Criatividade de Cannes é normalmente um momento de celebração. Uma semana para os melhores serem reconhecidos e voltarmos para casa cheios de insights e com a energia renovada para fazer cada vez melhor. Porém, estamos precisando muito usar esse momento para reflexão e tentarmos encontrar soluções aos problemas estruturais da nossa indústria. São vários, sendo que um dos mais complicados é a relação cliente-agência, brilhantemente abordada na conversa do David Droga, da agência Droga 5, com Kevin Plank, que é fundador e CEO da Under Armor.

Sou admirador do trabalho do David que, para mim, é o melhor criativo do mundo na atualidade. Ao acompanhar o trabalho da Droga 5, me questiono quais são os processos, cultura e talentos que a agência dele utiliza para gerar trabalhos tão incríveis e acima da média, de forma contínua e consistente. Senti um sopro na alma quando ele falou: “Em uma agência, não importa o quanto criativo você é. Sua criatividade é limitada dependendo do quanto seu cliente deixa você ser”.

Kevin contou que, durante a trajetória da Under Armour, que saiu de uma posição de underdog para vice-líder de artigos esportivos, com mais de US$ 5 bilhões de faturamento, houve um enorme aprendizado em como desenvolver uma relação sustentável e ganha-ganha com uma agência. No começo, disse,  era tudo realizado internamente ou por jobs pontuais. A relação com a Droga 5 começou pequena e evoluiu para algo realmente estratégico.

David e Kevin fizeram uma crítica às marcas e agências que, quando têm um pequeno sucesso, simplesmente apertam replay ao invés de continuar evoluindo. Para eles, se consome a mesma energia: fazer algo incrível e/ou somente justificar um trabalho mediano. Menos PPTs e keynotes de defesa, menos calls de alinhamentos e comitês de aprovação e mais coragem para fazer diferente. Em um mundo no qual tudo comunica e o consumidor tem cada vez mais formas de evitar ser interrompido, o único caminho para o sucesso é criar coisas relevantes. E essas coisas exigirem coragem e confiança de quem está fazendo o trabalho.

Infelizmente, trabalhando há 20 anos neste mercado, tenho acompanhado uma deterioração rápida e crescente na dinâmica das agências com os clientes. As relações se tornam cada dia mais o modelo cliente/fornecedor e, na minha opinião, esse formato está sob todos os aspectos fadados ao fracasso. Os motivos são muitos e a reflexão aqui poderia durar horas, mas a ideia deste texto é inspirar você, seja cliente ou agência, a não se conformar com essa situação. Não me conformo e luto todos os dias para criar uma dinâmica de colaboração. Felizmente, o trabalho de comunicação é cada vez menos subjetivo e fruto de parcerias de verdade aparecem no resultado final.

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